Visão cristã
   Palavra de Deus para o IV Domingo do Advento - B

 Leitura do Segundo Livro de Samuel (2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16)
1Tendo-se o rei Davi instalado já em sua casa e tendo-lhe o Senhor dado a paz, livrando-o de todos os seus inimigos, 2ele disse ao profeta Natã: "Vê: eu resido num palácio de cedro, e a arca de Deus está alojada numa tenda!"
3Natã respondeu ao rei: "Vai e faze tudo o que diz o teu coração, pois o Senhor está contigo".
4Mas, nessa mesma noite, a palavra do Senhor foi dirigida a Natã nestes termos: 5"Vai dizer ao meu servo Davi: 'Assim fala o Senhor: Porventura és tu que construirás uma casa para eu habitar? 8bFui eu que te tirei do pastoreio, do meio das ovelhas, para que fosses o chefe do meu povo, Israel.
9Estive contigo em toda a parte por onde andaste, e exterminei diante de ti todos os teus inimigos, fazendo o teu nome tão célebre como o dos homens mais famosos da terra.
10Vou preparar um lugar para o meu povo, Israel: eu o implantarei, de modo que possa morar lá sem jamais ser inquietado. Os homens violentos não tornarão a oprimi-lo como outrora, 11no tempo em que eu estabelecia juízes sobre o meu povo, Israel. Concedo-te uma vida tranqüila, livrando-te de todos os teus inimigos. E o Senhor te anuncia que te fará uma casa.
12Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então, suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realeza. 14aEu serei para ele um pai e ele será para mim um filho.
16Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre".

Salmo responsorial (Sl 88)
Ó Senhor, eu cantarei
Eternamente o vosso amor!.

Ó Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor,
de geração em geração eu cantarei vossa verdade!
Porque dissestes: "O amor é garantido para sempre!"
E a vossa lealdade é tão firme como os céus.

"Eu firmei uma Aliança com meu servo, meu eleito,
e eu fiz um juramento a Davi, meu servidor.
Para sempre, no teu trono, firmarei tua linhagem,
de geração em geração garantirei o teu reinado!

Ele, então, me invocará: 'Ó Senhor, vós sois meu Pai,
sois meu Deus, sois meu Rochedo onde encontro a salvação!'
Guardarei eternamente para ele a minha graça
e com ele firmarei minha Aliança indissolúvel".

Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos (Rm 16,25-27)
Irmãos: 25Glória seja dada àquele que tem o poder de vos confirmar na fidelidade ao meu evangelho e à pregação de Jesus Cristo, de acordo com a revelação do mistério mantido em sigilo desde sempre.
26Agora este mistério foi manifestado e, mediante as Escrituras proféticas, conforme determinação do Deus eterno, foi levado ao conhecimento de todas as nações, para trazê-las à obediência da fé.
27A ele, o único Deus, o sábio, por meio de Jesus Cristo, a glória, pelos séculos dos séculos. Amém!

Aleluia, aleluia, aleluia! (Lc 1,38)
Eis a serva do Senhor;
cumpra-se em mim a tua palavra!

Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas (Lc 1,26-38)
Naquele tempo, 26o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, 27a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria.
28O anjo entrou onde ela estava e disse: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!"
29Maria ficou perturbada com essas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação.
30O anjo, então, disse-lhe: "Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. 33Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim".
34Maria perguntou ao anjo: "Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?"
35O anjo respondeu: "O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. 36Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, 37porque para Deus nada é impossível".
38Maria, então, disse: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!" E o anjo retirou-se.



Escrito por Pe. Henrique às 02h24
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   Estudo bíblico-catequético para o IV Domingo do Advento - B

 1. Este é o último dos domingos do Advento:
=> A atenção da liturgia de hoje centra-se em Maria Virgem, que concebeu e deu à luz o Messias, descendente de Davi, Rei de Israel.
=> Vai ser atendia a espera de Israel e o desejo dos corações: "Céus, deixai cair o orvalho; nuvens, chovei o Justo! Abra-se a terra e brote o Salvador" (Is 45,8). 

2. Na leitura do Segundo Livro de Samuel convém sublinhar os seguintes elementos:
=> O período é o século X aC. Davi pensava construir uma Casa, um Templo para Deus. O Senhor lhe diz que ele é quem construirá para Davi uma Casa, isto é, uma Dinastia.
=> Releia o v. 11. O Messias será da Casa, da Dinastia de Davi.
=> Continue a leitura dos vv. 12.14a.16: aqui os cristãos sempre viram uma referência a Cristo Jesus.
=> Agora reze o Salmo de Responsorial: é uma oração toda fundamentada na promessa de Deus a Davi e sua Casa.

 3. Quanto à segunda leitura:
=> Releia e pense: do que trata aqui o Apóstolo? Tente descobrir: por que esta leitura no final do Advento?=> Resposta: o Mistério escondido eternamente é o Filho eterno do Pai que se fez homem de Maria e veio salvar toda a humanidade. Nele, todos os povos agora podem fazer parte do novo povo de Deus, povo da nova aliança, que é a Igreja. Leia Ef 3,2-6. 

4. Releia com atenção o Evangelho de hoje. Cuidado: de tão conhecido já não se lê contemplativamente!
=> Leia os vv. 26-27. Quem era descendente de Davi? Agora veja como era importante o "sim" de José: leia Mt 1,20-24. Se ele tivesse dito "não", Jesus não poderia ser "filho de Davi" e não poderia reivindicar o título de Messias.
=> Compare o diálogo do Anjo com Maria com as palavras de Sf 3,14-18a. Note: (1) Rejubila, filha de Sião; alegra-te, filha de Jerusalém, não verás mais a desgraça = Alegra-te, Cheia de graça! (2) Naquele dia será dito: "Não temas, Sião!" = Não temas, Maria! (3) O Senhor está no meio de ti como um herói que salva = Conceberás (dentro de ti) um filho e o chamarás Jesus (que significa "o Senhor salva)!
=> Conclusão: Maria é a realização da Filha de Sião, o Israel do Antigo Testamento. Nela cumpriu-se a profecia de Sofonias e a esperança de Israel!
=> Observe como o filho prometido a Maria é o Messias. Releia os vv. 31-33. Recorde a primeira leitura!
=> Releia o v. 34. Note que Maria não duvida; coloca de modo maduro e realista um problema: ela não tinha vida marital com José... Deseja apenas compreender para dar seu "sim" com toda a consciência.
=> Releia o v. 35. O Menino é fruto da ação do Espírito Santo do Pai. Compare com Gn 1,1-2: com a concepção virginal de Maria Deus vai iniciar uma nova criação. Agora compare com Ex 33,9-10 e 1Rs 8,10-12: como a glória do Senhor desceu como nuvem na Tenda e no Templo, fazendo-os morada de Deus, o Espírito do Senhor desceu sobre a Virgem - nova Tenda, novo Templo - fazendo-a morada do Deus feito homem!
=> O Anjo dá um sinal a Maria, para que ela compreenda que a promessa de Deus é real, não é um sonho. Qual é esse sinal? Leia o v. 36.
=> Uma virgem vai conceber permanecendo virgem: "para Deus nada é impossível"! Esta palavra é eco de uma outra, quando uma estéril concebeu. Leia Gn 18,13-14.



Escrito por Pe. Henrique às 02h21
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   O Clavis David!

  

Ó Chave de Davi,

e cetro da Casa de Israel,

que abris e ninguém fecha,

fechais e ninguém abre:

vinde e libertai da prisão o cativo

assentado nas trevas e à sombra da morte!

 

 

 
Este título dado ao Cristo que vem é inspirado em Is 22,22s, e  refere-se primeiramente a Eliaquim, guardião da Casa de Davi: "Porei sobre os seus ombros a chave da Casa de Davi: quando ele abrir, ninguém fechará; quando ele fechar, ninguém abrirá. Cravá-lo-ei como uma cavilha em lugar firme: ele virá a ser um trono de glória para a casa de seu pai".

Jesus é o verdadeiro Messias, descendente de Davi por excelência, honra da Casa de Davi. Com ele, o trono da descendência real de Davi estará garantido para sempre, conforme a promessa do Senhor (cf. 2Sm 7). Seu reino é eterno sem fim, seu poder jamais passará, será firme como uma "cavilha em lugar firme". A imagem de abrir e fechar são termos para indicar o poder de absolver e condenar, realçando a missão de juiz que o Rei-Messias possui: seu juízo sobre nós e sobre a humana história é definitivo, verdadeiro e sem apelação, pois que é ele o Senhor da história e a ele o Pai concedeu todo o poder de julgar. Por isso a súplica final: que ele nos absolva e liberte a nós, pecadores cativos, sentados à sombra da morte!

A antífona também o chama "cetro da Casa de Israel". Esta expressão corresponde à realeza do Messias filho de Davi e encontra-se já na antiga profecia que o velho Jacó fez sobre seu filho Judá, do qual surgiu a tribo que deu origem a Casa de Davi: "O cetro não se afastará de Judá, nem o bastão de comando de entre seus pés, até que o tributo lhe seja trazido e que lhe obedeçam os povos" (Gn 49,10). Neste texto impressionante já aparece claro que o reinado trazido pelo Messias, da tribo de Judá, vai estender-se a todos os povos.

Há ainda um outro texto, ainda mais impressionante, no qual a antífona se inspira. Trata-se do oráculo que Balaão, feiticeiro pagão, pronuncia sobre Israel no século XII aC:

"Oráculo de Balaão, filho de Beor, oráculo do homem de visão penetrante, oráculo daquele que ouve as palavras de Deus, daquele que conhece a ciência do Altíssimo. Ele vê aquilo que o Altíssimo faz ver, alcança a resposta divina e os seus olhos se abrem. Eu o vejo - mas não agora, eu o contemplo - mas não de perto: Um astro procedente de Jacó se torna chefe, um cetro se levanta, procedente de Israel". (Nm 24,15-17). Esse cetro que se levante e domina os povos diz respeito à Casa de Davi, da qual o Messias é a personificação! Impressiona como desde as origens o Santo Messias foi preparado! E a antífona reflete esta realidade...



Escrito por Pe. Henrique às 02h00
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Uma voz, uma Palavra

Do Comentário ao Evangelho de São João, por Orígenes (185-253), sacerdote e teólogo:

Em nós, a voz e a palavra não são a mesma coisa, porque a voz pode fazer-se ouvir sem conferir sentido, sem palavras, e a palavra também pode ser transmitida ao espírito sem voz, como acontece quando pensamos. Da mesma maneira, sendo o Salvador a Palavra, João difere Dele por ser a voz, por analogia com Cristo, que é a Palavra. É isso que o próprio João responde àqueles que lhe perguntam quem é ele: «Eu sou a voz do que brada no deserto: "Aplanai o caminho do Senhor"» (Jo 1,23).

Talvez seja por isso, por ter duvidado do nascimento dessa voz que viria a revelar a Palavra de Deus, que Zacarias perdeu a voz, recuperando-a quando nasceu esta voz que é o precursor da Palavra (cf. Lc 1,64). É que, para poder captar a palavra que a voz designa, o espírito tem de ouvir a voz. É também por isso que João é um pouco mais velho do que Cristo; com efeito, ouvimos a voz antes da palavra. João designa Cristo dessa maneira, porque foi por uma voz que a Palavra Se manifestou. E Cristo também é batizado por João, que confessa precisar ser batizado por Ele cf. (Mt 3,14). Em suma, quando João aponta para Cristo, é um homem que aponta para Deus, para o Salvador incorpóreo; é uma voz que aponta para a Palavra.



Categoria: Meditações
Escrito por Pe. Henrique às 14h49
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   o Radix Iesse!

 

 Ó Raiz de Jessé,

erguida como estandarte dos povos,

em cuja presença os reis se calarão

e a quem as nações invocarão;

vinde libertar-nos, não tardeis mais!

 

 

Hoje, Aquele que vem é saudado e invocado como Raiz de Jessé, aquela mesma de que fala Is 11,1, o Descendente prometido a Davi, filho de Jessé, o Rei eterno de Israel de que tanto falaram os salmos e os profetas:

"Naquele dia, a raiz de Jessé, que se ergue como um sinal para os povos, será procurada pelas nações, e a sua morada se cobrirá de glória. Ele erguerá um sinal para as nações" (Is 11,10.12a).

Mas, misteriosamente, de modo profundo e cheio de sentido das coisas de Deus, a antífona mistura esse Messias Rei glorioso com o Servo Sofredor, humilhado e morto por nós pela salvação do mundo:

"Eis que o meu Servo há de prosperar, ele se elevará, será exaltado, será posto nas alturas. Exatamente como multidões ficaram pasmadas à vista dele - tão desfigurado estava o seu aspecto - e a sua forma não parecei a de um homem - assim agora nações numerosas ficarão estupefatas a seu respeito, reis permanecerão silenciosos, ao verem coisas que não lhes haviam sido contadas e ao tomarem consciência de coisas que não tinham ouvido" (Is 52,13-15).

Eis o misterioso plano de Deus, a misteriosa lógica do Evangelho: o esperado Descendente de Davi não viria coberto de glória, mas pobre e humilde Servo sofredor, que reinaria pela cruz e, por um ato de amor total e puro, até o fim, libertaria toda a humanidade que o acolhesse e triunfaria na glória por toda a eternidade. O estandarte levantado em sinal para todas as nações é, precisamente, a cruz do Senhor Jesus, como ele mesmo declarou: "Quando eu for levantado da terra atrairei todos a mim" (Jo 12,32). Este misterioso e admirável paradoxo já se anuncia na Noite Santa, quando o Anjo dá aos pastores um sinal desconcertante: "Um recém-nascido, envolto em faixas, reclinado numa manjedoura" (Lc 2,11). Mas, quem pode aceitar um sinal assim? Os pobres, simples de coração, que aceitam as surpresas de Deus! Por isso o mundo não acolhe Jesus e desvirtua o seu santíssimo Natal!

Este era o sonho de Deus, isto foi o que o nosso Salvador, Rei-Messias realizou, esta é a realidade da nossa fé e a causa da nossa esperança. Bendita seja a Raiz de Jessé, o Cristo nosso Deus!



Escrito por Pe. Henrique às 00h40
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Um desígnio de amor

 Caro Internauta, eis um estupendo texto do século III, da Epístola a Diogneto, para sua meditação e edificação espiritual.

Nenhum homem viu a Deus nem o conheceu, mas ele mesmo se manifestou. (Observação minha: Esta afirmação, aparentemente tão trivial, é importantíssima: o homem, por si só, somente com suas forças, não pode chegar a Deus, não pode "vê-lo", não pode nem mesmo compreendê-lo nem abarcar seu modo de ser presente no mundo e guiar os acontecimentos da história. Neste mundo, nesta vida somente podemos ver a Deus "pelas costas").

Manifestou-se pela fé, pois só a ela é concedida a visão de Deus. (Observação minha: Outra afirmação basilar do cristianismo: Deus somente pode ser compreendido pela fé! Mesmo a razão humana, que pode vislumbrar reflexos de Deus, somente quando dá o salto da fé, pode chegar àquele conhecimento que supera todo conhecimento. O homem entregue somente às suas forças, jamais poderá ver a Deus. Isto vemos claramente no mundo atual: soberbo, fechado, descrente... torna-se cada vez mais obtuso para a presença de Deus. Não se trata de ausência de Deus, de morte de Deus - como dizia Nietzsche. Trata-se de cegueira humana).

O Senhor e Criador do universo, Deus, que fez todas as coisas e as dispôs em ordem, não só amou os homens, mas também foi paciente com eles. Deus sempre foi, é e será o mesmo: benigno e bom, isento de ira, veraz; só ele é bom. E quando concebeu seu grande e inefável desígnio, só o comunicou a seu Filho.

Enquanto mantinha oculto e em reserva seu plano de sabedoria, parecia abandonar-nos e esquecer-se de nós. Mas, quando revelou por seu Filho amado e manifestou o que havia preparado desde o princípio, ofereceu-nos tudo ao mesmo tempo: participar de seus benefícios, ver e compreender. Quem de nós poderia jamais esperar tamanha generosidade? (Observação minha: Note-se a idéia de um plano que Deus foi desenvolvendo pouco a pouco na história da salvação; é aquela realidade que os gregos chamam de economia e os latinos de dispensação. A pedagogia de Deus tem em vista a salvação da humanidade toda e se radica na filantropia de Deus, no seu amor pelos homens).

Tendo Deus, portanto, tudo disposto em si mesmo com o seu Filho, deixou-nos, até estes últimos tempos, seguir nossos impulsos desordenados, desviados do caminho reto pelos maus prazeres e paixões. Não que ele tivesse algum gosto com nossos pecados; tolerando-os, não aprovava aquele tempo de iniqüidade, mas preparava este tempo de justiça.

Assim, convencidos de termos sido, naquele período, indignos da vida em razão de nossas obras, tornemo-nos agora dignos dela pela bondade de Deus. E depois de mostrar nossa incapacidade de entrar pelas próprias forças no Reino de Deus, nos tornemos capazes disso pelo poder divino.



Categoria: Meditações
Escrito por Pe. Henrique às 23h09
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Um silêncio que fala

Dos pronunciamentos do Papa Bento XVI:

O silêncio de São José é um silêncio pleno de contemplação do mistério de Deus, numa atitude de disponibilidade total à vontade divina. Por outras palavras, o silêncio de São José não revela um vazio interior, pelo contrário revela a plenitude da fé que transporta no seu coração e que guia cada um dos seus pensamentos e cada uma das suas ações.

Um silêncio que leva José, em união com Maria, a guardar a Palavra de Deus conhecida através das Sagradas Escrituras, confrontando-o permanentemente com a vida de Jesus; um silêncio tecido na oração constante, oração de louvor ao Senhor, de adoração da Sua Vontade e de confiança sem reservas na providência.

Deixemo-nos «contaminar» pelo silêncio de S. José! Precisamos tanto, neste mundo tantas vezes demasiado barulhento, que não favorece o recolhimento e a escuta da voz de Deus. Neste tempo de preparação do Natal, cultivemos o recolhimento interior para acolhermos e conservarmos Jesus nas nossas vidas.



Categoria: Meditações
Escrito por Pe. Henrique às 11h46
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   O Adonai!

  

Ó Adonai,

 

Guia da Casa de Israel,

 

que aparecestes a Moisés na chama de fogo,

 

no meio da sarça ardente

 

e lhe destes a Lei no Sinai;

 

vinde resgatar-nos pelo poder do vosso braço!

 

 

 

 

 

Nesta Antífona de hoje, 18 de dezembro, toda atenção se volta para o Êxodo. “Adonai” é o nome com o qual os judeus chamam o Deus de Israel, evitando pronunciar “IAHWEH”, o Nome santíssimo revelado a Moisés no Sinai, de demtro da sarça ardente. Chamar Jesus de Adonai é chamá-lo de Deus, o Deus Libertador de Israel, que arrancou seu povo das trevas da escravidão no Egito e o guiou pelo deserto áspero e pavoroso por quarenta anos.

 

Pois bem, o Adonai, Guia da Casa de Israel, que se fazia presente no meio do seu povo de modo misterioso é o próprio Filho eterno: Ele foi a Rocha da qual brotou a água, Ele foi o maná que alimentou o povo, Ele guiou o seu povo pela nuvem luminosa... Foi Ele também quem falou a Moisés no meio da sarça ardente e lhe deu a Lei sobre o Monte Sinai.

 

Para os Santos Padres dos primeiros séculos cristãos tudo isso era muito claro. O Filho é a eterna revelação do Pai, sua eterna e única Palavra, seu Verbo, sua comunicação. Sendo assim, deste o Antigo Testamento, de modo velado, o Pai vai falando à humanidade por sua Palavra única e eterna: o Filho amado, que um dia haveria de fazer-se carne. Por isso, a Igreja, unida à Virgem Maria, cheia de admiração suplica que ele venha para resgatar o seu povo pelo poder de seu braço estendido, do mesmo modo que fez ao abri o Mar Vermelho.

 

 

 



Escrito por Pe. Henrique às 11h19
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Ainda a Instrução Dignitas Personae

Nos últimos decénios, as ciências médicas têm feito consideráveis progressos no conhecimento da vida humana nas fases iniciais da sua existência. Permitiram conhecer melhor as estruturas biológicas do homem e o processo da sua geração. Tais progressos são certamente positivos e merecem apoio, quando servem para ultrapassar ou corrigir patologias e ajudam a restabelecer o percurso normal dos processos generativos. São, porém, negativos e, por isso, não se podem aceitar, quando comportam a supressão de seres humanos ou usam meios que lesam a dignidade da pessoa ou então são adotados para finalidades contrárias ao bem integral do homem.

O corpo de um ser humano, desde as primeiras fases da sua existência, nunca pode ser reduzido ao conjunto das suas células. O corpo embrionário desenvolve-se progressivamente segundo um «programa» bem definido, e com um fim intrínseco próprio, que se manifesta no nascimento de cada criança.

Convém lembrar aqui o critério ético fundamental expresso na Instrução Donum vitae para avaliar todas as questões morais relativas às intervenções sobre o embrião humano: «O fruto da geração humana, desde o primeiro momento da sua existência, isto é, a partir da constituição do zigoto, exige o respeito incondicional que é moralmente devido ao ser humano na sua totalidade corporal e espiritual. O ser humano deve ser respeitado e tratado como pessoa desde a sua concepção e, por isso, desde esse mesmo momento devem ser-lhe reconhecidos os direitos da pessoa, entre os quais e antes de tudo, o direito inviolável de cada ser humano inocente à vida».

 Semelhante afirmação de carácter ético, reconhecida como verdadeira e conforme à lei moral natural pela própria razão, deveria servir de fundamento a todo o ordenamento jurídico.

Embora a presença de uma alma espiritual não possa ser detectada pela observação de qualquer dado experimental, são as próprias conclusões da ciência sobre o embrião humano a oferecer uma «indicação valiosa para discernir racionalmente uma presença pessoal desde esse primeiro aparecer de uma vida humana: como um indivíduo humano não seria pessoa humana?». A realidade do ser humano, com efeito, ao longo de toda a sua vida, antes e depois do nascimento, não permite afirmar nem uma mudança de natureza nem uma gradualidade de valor moral, porque possui uma plena qualificação antropológica e ética. O embrião humano, por isso, possui desde o início a dignidade própria da pessoa.

O respeito de tal dignidade é devido a cada ser humano, porque este traz impressos em si, de maneira indelével, a própria dignidade e o próprio valor. A origem da vida humana, por outro lado, tem o seu contexto autêntico no matrimónio e na família, onde é gerada através de um acto que exprime o amor recíproco entre o homem e a mulher. Uma procriação verdadeiramente responsável em relação ao nascituro «deve ser o fruto do matrimônio».

Mediante a doação pessoal recíproca, que lhes é própria e exclusiva, os esposos tendem para a comunhão dos seus seres, em vista de um aperfeiçoamento mútuo pessoal, para colaborarem com Deus na geração e educação de novas vidas». Na fecundidade do amor conjugal, o homem e a mulher «tornam evidente que, na origem da sua vida esponsal, existe um "sim" genuíno, que é pronunciado e realmente vivido na reciprocidade, permanecendo sempre aberto à vida... A lei natural, que está na base do reconhecimento da verdadeira igualdade entre as pessoas e os povos, merece ser reconhecida como a fonte, onde inspirar também a relação entre os esposos na sua responsabilidade de gerar novos filhos. A transmissão da vida está inscrita na natureza e as suas leis permanecem como norma não escrita, a que todos se devem referir».



Categoria: Teologia
Escrito por Pe. Henrique às 01h25
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Lições da genealogia de Jesus

Hoje, como Evangelho, a Liturgia apresentou-nos a genealogia de Jesus. É um texto riquíssimo de significado. Eis algumas lições preciosas:

1. O texto começa afirmando que o Senhor é filho de Davi, filho de Abraão. Ele é verdadeiro homem, vindo do limo da terra, da raça dos filhos de Adão. Por outro lado, ele é o cumprimento das promessas feitas a nosso Pai Abraão ("por tua descendência todos os povos da terra serão abençoados") e a Davi ("nunca faltará um descendente teu no teu trono").

2. Na genealogia aparecem santos como o rei Josias e ímpios como Manasses. Jesus não vem de uma raça pura, mas de uma humanidade marcada por grandezas e baixezas. É na trama da nossa vida, nos altos e baixos da existência, dia após dia, que Deus vai tecendo na nossa pobre vida o seu desígnio de amor e salvação.

3. Na genealogia aparecem cinco mulheres, todas elas em situação peculiar e irregular: Tamar, que teve um filho do sogro Judá; Raab, que era uma prostituta cananéia; Rute, que era uma pagã moabita, a mulher de Urias, com quem Davi adulterou e da qual nasceu Salomão e, finalmente, Maria, que antes de casar e ainda virgem, concebeu... Diante do Senhor Deus tudo tem sentido, tudo vai se encaixando e até nossas debilidades servem ao seu plano de amor!

4. Pense-se em quanta dor, quanta incerteza, quantas lágrimas em toda esta história de Israel... E Deus tecendo, e Deus conduzindo tudo à plenitude do Cristo, Santo Messias. Quantas recordações dolorosas na alusão que o texto faz ao Exílio de Babilônia: "Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no tempo do exílio na Babilônia". Parecia o fim, parecia que tudo iria se acabar... Mas, não! Deus estava conduzindo a história, Deus estava levando tudo a bom termo!

5. Outro dado importante: se Jesus vem da nossa raça, se vem dessa velha e sofrida humanidade, por outro lado, ele é um novo Começo, vem de Deus e não do homem. Esta novidade aparece na própria estrutura da narrativa: Fulano gerou Sicrano, Sicrano gerou Beltrano... Mas quando chega em Jesus, quebra-se a estrutura: "Matã gerou Jacó. gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo". O normal seria: Mata gerou Jacó. Jacó gerou José, José gerou Jesus... Mas, não! Aqui se tem uma quebra, aqui Deus intervém! Aqui algo novo e inusitado vai começar!

6. Uma última observação: "Assim, as gerações desde Abraão até Davi são catorze; de Davi até o exílio na Babilônia catorze; e do exílio na Babilônia até Cristo, catorze". Veja: Jesus é o fruto maduro de um caminho: 3 vezes 2x7: 3 e 7 indicam perfeição. Jesus é fruto de uma linhagem de três vezes quatorze. Em outras palavras: na plenitude do tempo (não antes, não depois) Deus visitou a nossa terra e nos trouxe a Salvação!
 



Categoria: Meditações
Escrito por Pe. Henrique às 22h45
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A deturpação da esperança cristã em vã utopia

Caro Leitor meu, vai aqui um pouco mais de Jean Daniélou. Recomendo que releia o post anterior para retomar o fio da meada e compreender o que o Cardeal está querendo dizer...

Da mesma forma, no Antigo Testamento, face à fidelidade de Deus, encontramos essa segunda realidade que é a infidelidade do povo. Se de um lado nada pode impedir a realização do plano de Deus, do outro encontramos a liberdade humana terrivelmente capaz de chocar-se com esse plano, não impedindo-o de existir, mas de produzir seus frutos. (Observação minha: No post anterior, o Autor mostrava como já antes do cristianismo Deus foi traçando a história, imprimindo nela um fio condutor, de modo que o cristianismo é uma novidade, mas também uma lenta maturação. Agora, o Autor chama a atenção para o outro aspecto: o homem é capaz de dizer "não" ao plano de Deus. Este "não", ainda que não danifique o plano de Deus em nível global, prejudica a humanidade, podendo até mesmo nos mandar para a danação eterna do inferno).

É esse aspecto que apresenta a história de Israel em que Deus convida seu povo a servi-lo e este, perpetuamente, por suas infidelidades, subtrai-se às graças de Deus. Citam-se passagens admiráveis dos profetas lembrando ao povo suas infidelidades e exortando-o a tornar-se melhor. Encontramos aí, no próprio âmago da Bíblia, este duplo aspecto de continuidade histórica e oposição trágica.

É dessa oposição bíblica que o pensamento contemporâneo nos oferece um aspecto degenerado, mostrando-nos ao mesmo tempo uma perspectiva otimista e histórica e outra desesperada e dramática. Temos, de um lado, imensa fé no progresso material capaz de grandes movimentos como o do comunismo. No fundo, o pensamento comunista, além de todas as questões políticas exteriores, tal como o encontramos na filosofia de Marx que constitui sua base, é a idéia de que, no correr da história, há um progresso que se realiza irrevogavelmente. Pode haver crises, revoluções. Tudo isso se perde nesse vir a ser através do qual, em centenas e milhares de anos, realiza-se o progresso. Por conseguinte, havemos de ter fé na história e confiança no progresso; embora não cheguemos a vê-lo, o importante é que ele se realize. (Observação minha: O Autor viveu no auge da Guerra Fria e da sedução do marxismo na Europa. Ele tem razão na análise que faz. Nunca esqueçamos que o esquema marxista é uma cópia mal feita da visão cristã da história: paraíso original = comunismo primitivo; pecado original = nascimento da propriedade privada pela apropriação do excedente de coleta; messias que toma o pecado do mundo = classe proletária que com seu sangue é oprimida e fará a revolução, libertando-se e libertando a burguesia; glória do céu = o comunismo final. Marx não fez mais que secularizar e dessacralizar a visão cristã da história, criando a aberração de uma história que em si mesmo teria uma plenitude e um sentido. Com toda certeza um tal projeto estava destinado ao total fracasso...)

Presenciamos aqui a decadência de uma grande idéia cristã: é a fé, apoiada na promessa de Deus, em uma cidade bem-aventurada. Essa fé no comunismo desvirtua-se com a esperança de uma cidade temporal perfeita, resultante de esforços humanos.

Crer em um sentido da história, crer profundamente que, através de todas as revoluções, de todos os dramas que atravessamos, há algo que amadurece, que se realiza, que tende para o bem, é possuir uma visão essencialmente cristã. É um dever para nós hoje, no meio de todos os desesperos e decepções aparentes, manter esse otimismo, mantê-lo tanto ou mais que os outros porque sabemos bem que através de todos os dramas a cidade de Deus se edifica misteriosamente, por vias que não são as nossas, mas com uma certeza inflexível, porque Deus é fiel à sua promessa. (Observação minha: O Autor utiliza a palavra otimismo; seria melhor usar esperança, que consiste em esperar Deus de Deus, esperar porque Deus prometeu. Há ainda uma coisa importante: se é verdade que há um sentido na história e que caminhamos para um ponto Ômega, também é verdade que o pecado é uma realidade forte e presente efetivamente no coração do homem e do mundo. O centro da nossa fé é o mistério da cruz do Senhor, que não nos deixa cair num otimismo ingênuo de pensar que esse mundo caminha placidamente para o Senhor. Hoje, mais que nunca, podemos tocar o quanto o pecado é presente, potente e maléfico). Sabemos que o Verbo de Deus atua no mundo realizando um plano irrevogável e que um dia todas as nações se reunirão no reino do Pai.



Categoria: Teologia
Escrito por Pe. Henrique às 22h15
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Vindo de Israel, vindo da humanidade...

Das obras de Ruperto de Deutz (1075-1130), monge beneditino:

Em São Mateus lemos a genealogia de Cristo. Este costume tradicional da Santa Igreja tem bons e misteriosos motivos.

Verdadeirmente este texto apresenta-nos a escada que Jacó viu de noite, durante o seu sono(Gn 28,11s). Apoiado no alto dessa escada, que tocava os céus, o Senhor apareceu a Jacó e prometeu-lhe a herança da terra.

Ora, sabemos que «a sua vinda é-nos apresentada de forma simbólica» (1Cor 10,11). Então o que prefigura essa escada, senão a linhagem da qual Jesus deveria nascer, linhagem que o santo evangelista, com um sopro divino, faz subir, de maneira que chegasse a Jesus passando por José? E a este José o Senhor confiou o Menino. Pela «Porta do Céu» (Gn 28,17), quer dizer, pela Bem-aventurada Virgem, sai Nosso Senhor a chorar, feito criança por nós. No seu sono, Jacó ouviu que o Senhor lhe dizia: «Na tua posteridade serão abençoadas todas as nações da terra» e este fato realizou-se com o nascimento de Cristo.

Era o que o evangelista tinha em vista quando,na genealogia de Jesus, inseriu Raab, a prostituta, e Rute, a moabita; porque efetivamente viu que Cristo não encarnou apenas para os judeus, mas também para os pagãos, Ele que Se dignou receber os anciãos consagrados entre os pagãos.

Por conseguinte, vindos dos dois povos, judeus e pagãos, como os dois lados da escada, os anciãos colocados em diferentes degraus recebem Cristo Senhor que desce do alto dos céus. E todos os santos anjos descem e sobem por esta escada, por onde os eleitos são descidos, para receberem humildemente a fé na encarnação do Senhor, sendo depois elevados a fim de contemplarem a glória da Sua divindade.



Categoria: Meditações
Escrito por Pe. Henrique às 15h37
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   O Sapientia!


Ó Sabedoria,

que saístes da boca do Altíssimo,

 atingindo de uma a outra extremidade

e tudo dispondo com força e suavidade;

vinde ensinar-nos o caminho da prudência!

 

 

São Paulo afirma que Jesus é a Sabedoria de Deus (cf. 1Cor 1,24) e o próprio Jesus chegou a apresentar-se como a Sabedoria que é reconhecida pelos seus filhos (cf. Lc 7,35). De fato, toda esta antífona, de profunda teologia, parte desta certeza. 

Depois, desenvolve o tema inspirando-se nos livros sapienciais, que nos apresentam a Sabedoria criadora. Para os cristãos, Jesus é esta Sabedoria, através da qual desde o princípio tudo foi criado e tudo é conduzido. 

Eis alguns textos da Escritura que serviram de inspiração para a nossa antífona. São textos referentes à Sabedoria que, para nós, cristãos, é o Cristo Jesus: 

"O Senhor me formou, primícias de sua obra, de seus feitos mais antigos. Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes da origem da terra. Quando os abismos não existiam, eu fui gerada, quando não existiam os manaciais de água. Antes que as montanhas fossem implantadas, antes das colinas, eu fui gerada; ele ainda não havia feito a terra e a erva, nem os primeiros elementos do mundo. Quando firmava os céus, lá eu estava, quando traçava a abóbada sobre a face do abismo... Eu estava junto com ele como o mestre-de-obras, eu era o seu encanto todos os dias, todo o tempo brincava em sua presença: brincava na superfície da terra, e me alegrava com os homens" (Pr 8,22-31)

"A Sabedoria faz seu próprio elogio: 'Saí da boca do Altíssimo e como neblina cobria a terra. Só eu rodeei a abóbada celeste, eu percorri a profundeza dos abismos'" (Eclo 24,1-5)

"Os ingênuos venham aqui; quero falar aos sem juízo: Vinde comer do meu pão e beber do vinho que misturei. Deixai a ingenuidade e vivereis, segui o caminho da inteligência" (Pr 9,4-6). 

Pois bem, eis a surpresa! Eis o inesperado: esta Sabedoria infinita, inesgotável e eterna nascerá de Maria Virgem como uma criacinha que sequer pode falar! É por ela que a Igreja hoje suplica humildemente. Quem se abre para acolhê-la descobre o sentido da vida e vive uma existência na verdadeira prudência, sabendo chamar o certo de certo e o errado de errado, porque adquire a capacidade de ver e avaliar tudo com os olhos da Sabedoria de Deus, o Cristo Jesus! 

Vem, vem com tua luz, ó Senhor Jesus!

 



Escrito por Pe. Henrique às 02h16
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   As Antífonas Ó

Hoje, 17 de dezembro, tem início a Semana Santa do Natal. É a segunda parte do Tempo do Advento que se inicia, preparando-nos de modo mais direto para a Natividade do nosso Salvador Jesus Cristo.

A marca desta Semana Santa são as chamadas "Antífonas Ó".

Elas têm sua origem no século VI e foram introduzidas na Liturgia Latina pelo Papa São Gregório Magno. Exprimem a admiração e o extasiamento da Igreja diante do Cristo que virá.

Nestas Antífonas venerabilíssimas, a Igreja une-se à Virgem Maria no mistério da sua expectação: a Virgem Mãe Maria e a Virgem Mãe Igreja extasiam-se juntas na admiração, no contentamento e no louvor do Salvador que virá.

Daí vem a devoção a "Nossa Senhora do Ó" - ou seja, Nossa Senhora das Antífonas Ó, Nossa Senhora que se extasia na contemplação admirada do Filho que vai chegar!

As Antífonas foram compostas como um acróstico, de modo que, tomadas do começo para o fim (do Emanuel para a Sabedoria), formam a frase latina "Ero cras", que significa: "Amanhã eu virei!" De fato, já no dia 24 pela tarde, a Igreja celebra as primeiras vésperas do Natal do Senhor - ele veio!


A Virgem do Sinal:
com ela a Igreja espera
o Santo Emanuel



Escrito por Pe. Henrique às 01h56
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A dignidade do embrião

Mais um trechinho da Instrução Dignitas personae:

Nos últimos decênios, as ciências médicas têm feito consideráveis progressos no conhecimento da vida humana nas fases iniciais da sua existência. Permitiram conhecer melhor as estruturas biológicas do homem e o processo da sua geração. Tais progressos são certamente positivos e merecem apoio, quando servem para ultrapassar ou corrigir patologias e ajudam a restabelecer o percurso normal dos processos generativos. São, porém, negativos e, por isso, não se podem aceitar, quando comportam a supressão de seres humanos ou usam meios que lesam a dignidade da pessoa ou então são adoptados para finalidades contrárias ao bem integral do homem. 

O corpo de um ser humano, desde as primeiras fases da sua existência, nunca pode ser reduzido ao conjunto das suas células. O corpo embrionário desenvolve-se progressivamente segundo um «programa» bem definido, e com um fim intrínseco próprio, que se manifesta no nascimento de cada criança.

Convém lembrar aqui o critério ético fundamental expresso na Instrução Donum vitae para avaliar todas as questões morais relativas às intervenções sobre o embrião humano: «O fruto da geração humana, desde o primeiro momento da sua existência, isto é, a partir da constituição do zigoto, exige o respeito incondicional que é moralmente devido ao ser humano na sua totalidade corporal e espiritual. O ser humano deve ser respeitado e tratado como pessoa desde a sua concepção e, por isso, desde esse mesmo momento devem ser-lhe reconhecidos os direitos da pessoa, entre os quais e antes de tudo, o direito inviolável de cada ser humano inocente à vida».

Semelhante afirmação de caráter ético, reconhecida como verdadeira e conforme à lei moral natural pela própria razão, deveria servir de fundamento a todo o ordenamento jurídico.

Embora a presença de uma alma espiritual não possa ser detectada pela observação de qualquer dado experimental, são as próprias conclusões da ciência sobre o embrião humano a oferecer uma «indicação valiosa para discernir racionalmente uma presença pessoal desde esse primeiro aparecer de uma vida humana: como um indivíduo humano não seria pessoa humana?». A realidade do ser humano, com efeito, ao longo de toda a sua vida, antes e depois do nascimento, não permite afirmar nem uma mudança de natureza nem uma gradualidade de valor moral, porque possui uma plena qualificação antropológica e ética. O embrião humano, por isso, possui desde o início a dignidade própria da pessoa.




Categoria: Teologia
Escrito por Pe. Henrique às 20h09
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Dignidade de pessoa: da concepção è morte

Caro Internauta, veio à luz uma nova instrução - Dignitas Personae (Dignidade da Pessoa) - da Congregação para a Doutrina da Fé sobre temas ligados à vida humana. São sérias questões de bioética. Colocarei aqui alguns trechos mais significativos... Uma coisa é certa: vão meter a ripa na Igreja! Procure ler, compreender, rezar e defender, porque são princípios decorrentes da nossa fé em Cristo Jesus!

A todo o ser humano, desde a concepção até à morte natural, deve reconhecer-se a dignidade de pessoa. Este princípio fundamental, que exprime um grande «sim» à vida humana, deve ser colocado no centro da reflexão ética sobre a investigação biomédica, que tem uma importância cada vez maior no mundo de hoje.

No variegado panorama filosófico e científico atual, é possível constatar uma ampla e qualificada presença de cientistas e filósofos que, no espírito do juramento de Hipócrates, concebem a ciência médica como um serviço à fragilidade do homem para a cura das doenças, o alívio do sofrimento, e para alargar com equidade a toda a humanidade a necessária assistência. Não faltam, porém, representantes da filosofia e da ciência que encaram o crescente progresso das tecnologias biomédicas numa perspectiva substancialmente eugenética.

A Igreja católica, ao propor princípios e avaliações morais para a investigação biomédica sobre a vida humana, recorre à luz da razão e da fé, contribuindo para a elaboração de uma visão integral do homem e da sua vocação, capaz de acolher tudo o que de bom emerge das obras dos homens e das várias tradições culturais e religiosas, que não raras vezes mostram uma grande reverência pela vida.

O Magistério pretende dar uma palavra de encorajamento e de confiança em favor de uma perspectiva cultural que vê a ciência como precioso serviço ao bem integral da vida e da dignidade de cada ser humano. A Igreja, portanto, olha com esperança para a investigação científica, esperando que muitos cristãos se dediquem ao progresso da biomedicina e testemunhem a própria fé nesse âmbito. Espera igualmente que os resultados dessa investigação sejam postos à disposição também das áreas pobres e atingidas por doenças, de modo a enfrentar as necessidades mais urgentes e dramáticas do ponto de vista humanitário.

Por fim, a Igreja pretende estar presente ao lado de cada pessoa que sofre no corpo e no espírito, para lhe dar não só um conforto, mas a luz e a esperança. Estas dão sentido também aos momentos da doença e à experiência da morte, que pertencem efectivamente à vida do homem e marcam a sua história, abrindo-a ao mistério da Ressurreição. O olhar da Igreja está, de fato, repleto de confiança, porque «a vida vencerá: esta é para nós uma esperança segura. Sim, a vida vencerá, porque do lado da vida estão a verdade, o bem, a alegria e o verdadeiro progresso. Do lado da vida está Deus, que ama a vida e a doa em abundância».


O Cardeal Levada,
Prefeito da Congregação
para a Doutrina da Fé



Categoria: Teologia
Escrito por Pe. Henrique às 16h31
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A fidelidade de Deus

Eis, caro Internauta, mais um pouco de Daniélou, continuando o post anterior:

Contra esse plano [de Deus] os homens nada podem absolutamente. A liberdade humana não entra aqui em jogo, uma vez que a execução desse plano independe da fidelidade do homem. Se houvesse entre Deus e nós um contrato e se um dos dois contratantes ficasse livre de suas obrigações na medida em que o outro não se desobrigasse, a aliança de há muito estaria rompida. 

Como o homem não realiza suas obrigações, Deus ficaria desligado de sua palavra. Ora, diz-nos São Paulo, o que nos une a Deus não é um contrato bilateral, mas uma promessa unilateral, de Deus, que não está à mercê de nossa infidelidades a não ser na medida em que essas infidelidades nos impedem de desfrutar a promessa, sem que, contudo, ela possa ser anulada. 

Podemos colocar-nos na impossibilidade na medida em que estamos no pecado, mas a promessa é irrevogável, tão irrevogável quanto a ordem natural em que Deus se empenhou. É nesta perspectiva que se justifica o otimismo fundamental na concepção cristã.



Categoria: Teologia
Escrito por Pe. Henrique às 11h55
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A fidelidade de Deus para com a criação

 Eis, caro Internauta, mais de Daniélou: 

Que se entende por essa aliança, esse testamento? É a tríplice promessa feita por Deus a Abraão: primeiro, de introduzir seu povo na Terra de Canaã; em segundo lugar de que nasceria de sua raça o Salvador do mundo; e, finalmente, de que todas as nações se reuniriam em torno de sua descendência. 

Essa aliança, entretanto, não é a primeira. Temos na Bíblia uma passagem extremamente curiosa pelas perspectivas que nos abre sobre o pensamento bíblico: é a narração do dilúvio. Nessa narração vemos Deus dizer a Noé, após o dilúvio, que doravante fará ele uma aliança; promete-lhe não perturbar mais a ordem natural e dá-lhe como sinal o arco-íris: vendo no céu esse sinal, Deus lembrar-se-á de sua aliança e fará cessar a chuva. (Observação minha: A aliança de Deus com Noé não é ainda a aliança com Israel, não está ainda no interior da Tora. A importância dessa aliança é que ela se dá com toda a humanidade e até mesmo com toda a criação: Deus promete nunca mais destruir a terra com um dilúvio. É óbvio, mas convém recordar: Noé não era israelita - estes ainda sequer existiam. Noé representa toda a humanidade).

Quando, mais tarde, os judeus quiserem relembrar a Deus sua aliança, isto é, as promessas feitas a seu povo, começarão sempre assim: "Tu que conservas fielmente a ordem no mundo e, por conseguinte, guardas fidelidade à promessa feita a Noé, sê, pois, fiel à promessa feita a teu povo e a Abraão". (Observação minha: Isto não nos deve fazer pensar que os israelitas deduziram a fidelidade e o poder de Deus da sua ação na criação. Israel experimentou o seu Deus como potente e fidelíssimo primeiro e principalmente na sua história: foi ele o Deus que o arrancou do Egito e o conduziu pelo deserto, dando-lhe a terra. É esta fidelidade potente de Deus que Israel aprende a contemplar também na criação, como expressão do amor de Deus: o Deus que o salvou é o Deus de toda a terra e de toda a humanidade)

Quer isto dizer que, sendo Deus fiel na ordem natural, com maior razão o é ao plano estabelecido por ele na ordem da graça que se realizará irrevogavelmente e que nada pode modificar. 

Era esse o pensamento dos judeus: se o sol, todos os dias, se levanta, não é por um determinismo físico, é por causa da fidelidade de Deus, porque nada já de impessoal na criação. (Observação minha: Eis aqui uma idéia estupenda, profunda e absolutamente verdadeira. Com o desenvolvimento das ciências pensa-se que tudo pode ser explicado por suas causas naturais e, então, aposenta-se Deus. E, no entanto, as causas segundas, causas naturais, nada mais são que expressão da ordem sapiente que Deus imprimiu em tudo e da sua constante e fidelíssima presença que tudo dirige com força e suavidade. Pergunta-se a um botânico por que tal orquídea floriu; ele explicará pelas leis naturais, e está correto; pergunta-se a um poeta, e ele dirá que é porque a vida é bela e teima sempre em brotar, em expandir-se; também este tem razão. Se se pergunta a um místico, ele dirá que é porque Deus é amor fiel, sempre presente na sua criação, agindo do mais íntimo dela. É Deus que está presente na flor que se abre, na vida que desabrocha, na criança que sorri, nos olhos que se fecham, no sorriso que se abre. Uma visão que deseje resumir tudo ao natural é uma razão tola, cega, superficial e retardada! No mais íntimo de si, cada ser grita por uma Causa, pelo mistério de um Sentido, de uma Sabedoria que tudo ordena e tudo dirige, com infinito respeito pela sua criatura e pela própria dinâmica que imprimiu na sua criação. Desconhecer isso é perder todo o sentido bíblico da presença providente, atuante e criativa do Deus vivo).

 



Categoria: Teologia
Escrito por Pe. Henrique às 16h59
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Ele não era a luz: veio dar testemunho da luz

 Dos Sermões de Santo Agostinho (354-430), Bispo e doutor da Igreja:

Como é que Cristo veio? Apareceu como homem. Porque Ele era homem quase ao ponto de Deus estar escondido nele, foi enviado à sua frente um homem notável, para obrigar a reconhecer que Ele, Cristo, era mais do que um homem.

Quem era ele, esse que, assim, devia dar testemunho da Luz? Um ser notável, este João, um homem de um alto mérito, de uma graça eminente, de uma grande elevação. Admira-o, mas como se admira uma montanha: a montanha fica nas trevas até que a luz venha envolvê-la: «este homem não era a Luz». Não tomes a montanha pela luz; não vás quebrar-te contra ela, muito longe de aí encontrares socorro.

E o que devemos, então, admirar? A montanha, mas como montanha. Eleva-te até àquele que ilumina esta montanha que se ergueu para ser a primeira a receber os raios do sol, a fim de os reenviar para os teus olhos... Dos nossos olhos se diz também que são luz; e contudo, se não se acender a lâmpada à noite, ou o sol não nascer durante o dia, os nossos olhos abrem-se em vão. João foi também trevas antes de ser iluminado; só se tornou luz por essa iluminação. Se não tivesse recebido os raios da Luz, teria ficado nas trevas como os outros.

E a própria luz, onde está ela? « A Luz verdadeira que ilumina cada homem ao vir a este mundo»? (Jo 1,9). Se ilumina cada homem, iluminava também João, através de quem se queria manifestar... vinha para inteligências enfermas, para corações feridos, para almas com olhos doentes..., gente incapaz de O ver diretamente.

Ela cobriu João com os seus raios. Proclamando que ele próprio fora iluminado, João deu a conhecer Aquele que ilumina, Aquele que aclara, Aquele que é a fonte de todos os dons.



Categoria: Meditações
Escrito por Pe. Henrique às 12h10
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